Pular para o conteúdo

Cacau pode voltar a déficit em 2026/27

Classifrutas6 min de leitura

mercado global de cacau

Oferta global de cacau muda de direção

O mercado global de cacau deve sair de um superávit de 494 mil toneladas em 2025/26 para um déficit de 64 mil toneladas em 2026/27, segundo projeções da StoneX divulgadas pelo Notícias Agrícolas.

A mudança interrompe a recomposição dos estoques globais. Além disso, reacende a atenção sobre clima, oferta e demanda nas principais origens produtoras.

Para o próximo ciclo, a produção mundial é estimada em cerca de 4,74 milhões de toneladas. Isso representa queda de 9,6% frente à temporada anterior. O cenário considera os efeitos de um El Niño muito forte, com impactos diferentes entre regiões.

“O superávit de 2025/26 trouxe uma recomposição importante da oferta global, apoiada pelo desempenho da Costa do Marfim, pelas exportações recordes do Equador e por uma das melhores safras brasileiras dos últimos anos. Para 2026/27, porém, o quadro muda, com redução da produção em origens relevantes e uma margem de segurança menor para o mercado.”

Lucca Bezzon, analista de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil

Costa do Marfim e Gana pesam no balanço

A Costa do Marfim, maior produtora mundial, encerrou 2025/26 com cerca de 2,05 milhões de toneladas. No entanto, a projeção para 2026/27 caiu para 1,75 milhão de toneladas, recuo de 14,6%.

Segundo a StoneX, a revisão reflete o início lento da colheita, chuvas abaixo da média e riscos ligados ao El Niño e ao Harmatã. Portanto, a safra principal deve ficar abaixo do volume anterior.

Cotações do cacau diante do início lento da safra

A maior incerteza está na safra intermediária. Isso ocorre porque o pico esperado do El Niño, entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027, coincide com a formação dos frutos colhidos a partir de abril.

Em Gana, a produção deve recuar de cerca de 700 mil toneladas para 580 mil toneladas. Assim, a queda projetada fica próxima de 17%.

“O excedente deixado pela safra 2025/26 ajuda a amortecer os efeitos do início mais lento do novo ciclo, mas a evolução climática no Oeste Africano precisará ser acompanhada de perto. Qualquer deterioração adicional pode reduzir rapidamente a margem de segurança e ampliar a sensibilidade do mercado.”

Leonardo Rossetti, especialista de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil

Equador, Indonésia e Brasil também entram no radar

No Equador, as exportações recordes elevaram a produção de 2025/26 para aproximadamente 650 mil toneladas. Porém, a estimativa para 2026/27 foi revisada para 585 mil toneladas, queda de 10%.

O excesso de umidade, o calor e os relatos de alagamentos em regiões produtoras aumentam o risco de doenças fúngicas. Além disso, podem dificultar a secagem e a fermentação das amêndoas.

Na Indonésia, o quadro é considerado mais preocupante. As chuvas de setembro ficaram mais de 70% abaixo da média, enquanto a umidade do solo caiu de forma acentuada. Diante disso, a StoneX reduziu a projeção para 195 mil toneladas.

Ofertas de cacau em meio à quebra prevista na Indonésia

No Brasil, a safra 2025/26 foi uma das melhores dos últimos anos. Os recebimentos de amêndoas avançaram cerca de 25%, e a produção foi estimada em 226 mil toneladas. Para 2026/27, a projeção é de 210 mil toneladas.

Entre os pontos de atenção estão estiagem e queimadas na Transamazônica, no Pará. Também há possibilidade de chuvas abaixo da média no sul da Bahia entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027. Até o momento, porém, os dados disponíveis não indicam perdas relevantes na produção paraense.

Moagem cresce, mas consumo ainda exige cautela

A moagem nas regiões acompanhadas chegou a 903 mil toneladas no terceiro trimestre. O resultado superou expectativas e ficou próximo do nível observado em 2024.

O avanço foi puxado principalmente pela Ásia e pela Costa do Marfim. Além disso, a Europa registrou a primeira alta anual desde 2024.

Mesmo assim, parte da expansão está ligada à recomposição dos estoques das processadoras. Portanto, ela não indica, sozinha, uma recuperação proporcional do consumo final de chocolate.

“A moagem mostrou uma reação positiva, mas os indicadores dos derivados ainda apontam para uma demanda seletiva. Uma recuperação mais consistente dependerá sobretudo da melhora da procura por manteiga e líquor de cacau.”

Lucca Bezzon, analista de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil

Estoques seguem melhores, mas clima ganha peso

O superávit de 2025/26 deve elevar os estoques globais para cerca de 1,83 milhão de toneladas. Com isso, a relação estoque/uso chega ao maior nível desde 2020/21.

Dados de mercado para cacau, manteiga e líquor

Essa recomposição vem depois dos déficits registrados entre 2021/22 e 2023/24. Naquele período, os estoques caíram para mínimas da série e contribuíram para os preços recordes de 2024.

Para 2026/27, o déficit projetado deve reduzir os estoques para aproximadamente 1,77 milhão de toneladas. A relação estoque/uso deve ficar perto de 37%.

Embora esse nível ainda seja mais confortável que as mínimas recentes, o mercado fica mais sensível a perdas adicionais. Segundo a StoneX, cada redução extra de 100 mil toneladas pode retirar cerca de dois pontos percentuais dessa relação.

“O déficit projetado é menor do que os observados nos ciclos anteriores de aperto, mas o mercado entra em 2026/27 mais exposto às condições climáticas. As chegadas de cacau aos portos da Costa do Marfim e a evolução do El Niño serão determinantes para a direção do balanço global.”

Leonardo Rossetti, especialista de Inteligência de Mercado da StoneX Brasil

O que o setor deve acompanhar

Para produtores, compradores, distribuidores e varejistas, o ponto central é a combinação entre clima e disponibilidade. Além disso, a evolução da moagem ajudará a indicar se a demanda por derivados ganha força.

Acompanhamento do cacau entre clima, portos e moagem

Entre os principais fatores de acompanhamento estão:

  • chegadas de cacau aos portos da Costa do Marfim;
  • intensidade do El Niño entre dezembro de 2026 e fevereiro de 2027;
  • condições de umidade no Equador e na Indonésia;
  • ritmo de moagem na Ásia, Europa e origens produtoras;
  • comportamento dos estoques globais ao longo do ciclo.

Nesse contexto, plataformas de informação e conexão comercial, como o Classifrutas, ajudam o setor FLV e agroalimentar a acompanhar movimentos de oferta, demanda e negociação com mais clareza.

Compartilhar este artigo:

Veja também

macieiras anãsClassifrutas

Genes ligados a macieiras anãs avançam

Estudo identifica via genética ligada a macieiras anãs e pode apoiar o melhoramento para pomares de alta densidade.

3 min de leitura
safra 2026/27Classifrutas

Safra 2026/27: soja e milho sob pressão

Entenda os pontos de atenção da safra 2026/27 de soja e milho, com produção alta, clima, fertilizantes e exportações no radar.

4 min de leitura